Fastolf Brambel


Efeito do Tempo



Quinta-feira, 12 de agosto de 1999

O acelerador de partículas parece funcionar corretamente.
O tamanho da capsula já foi aumentado levando em consideração o reforço da Camara de Boldwing na fusão do propano a 85,5 K.
Ainda não tenho certeza do efeito da radioatividade sobre o magnetismo gerado pelo conversor de prótons nos átomos de íon positivo.


Sexta-feira, 13 de agosto de 1999

Encontrei o problema na mangueira que leva o mercúrio à válvula de condução.
Resolvido o isolamento na Camara de Boldwing impedindo que o corpo congele antes da ativação do acelerador.
Com isso:
Fusão OK;
Acelerador OK;
Conversor OK;
Camara 1 OK;
Camara 2 OK;
Condução OK;
Acho que estamos prontos para o primeiro teste.


Sábado, 14 de agosto de 1999

Teste realizado com uma bolinha vermelha.
Objetivo:
Colocar o objeto em uma capsula localizada no canto esquerdo da sala para que seja transportado através de toda a engenhoca para a capsula localizada no canto direito da sala.
Status 1: Positivo. 100% das partículas foram convertidas com êxito. Objeto não mais se encontra na Camara 1 da capsula L.
Status 2: Negativo. 0% das partículas transferidas para a Camara 2 da capsula R.
Observação: Perdi uma bolinha


Domingo, 15 de agosto de 1999

Teste realizado com uma bolinha azul.
Objetivo:
O mesmo de ontem.
Status: A porra da máquina sumiu com outra bolinha.


Quarta-feira, 25 de agosto de 1999

Não aguento mais perder bolinhas.


Sexta-feira, 27 de agosto de 1999

Contratei um físico e um engenheiro para me ajudar com as pesquisas e concluir o projeto.
Logo pela manhã o engenheiro admitiu sua falta de competência para o andamento da operação.
Regressei de meu almoço e não mais encontrei meu amigo físico.


Sábado, 28 de agosto de 1999

Continuo sem achar uma solução.
O físico de uma figa ainda não deu as caras. Desgraçado.


Segunda-feira, 30 de agosto de 1999

Descobri uma fenda entre duas placas de carbono no selecionador de elementos da Camara 1.
Acredito que todas as partículas possam ter sido desintegradas pela inconstância de radioatividade na corrente magnética. Assim como o físico.
Farei mais uns testes que reportarei no diário amanhã.


Algum dia, 19**

Descobri que minha casa um dia foi enorme. E abandonada.
Acredito que algo tenha dado errado. Fui fuçar na fenda e ver se reagia de alguma maneira luminosa quando em operação. Fiquei meio tonto e quando acordei estava aqui.
Mas ainda tenho uma boa notícia: Achei todas as bolinhas!


Segunda-feira, 2 de junho de 1919

De fato, algo deu errado! Não sei nem o que se vestia em 1919!


Terça-feira, 3 de junho de 1919

Agora que arrumei roupas da época as pessoas pararam de me olhar estranho.
Hoje apareceu um senhor de idade perguntando se eu tinha interesse em vender a casa. Bem, não tomaria nenhuma decisão para não interferir no meu futuro mas acho que não posso sair daqui até que pense em alguma maneira de voltar para casa. Ou para o meu tempo, ou seja lá o que for.


Quarta-feira, 4 de junho de 1919

Droga, nenhuma marca na sala indicando o lugar por onde cheguei. Engraçado, eu simplesmente apareci por aqui!
Aquele senhor voltou a me procurar. Hoje trouxe sua esposa para conhecer a casa. Vou dizer que a proposta não é das mais absurdas e a fome está aumentando com o tempo, não aguento mais comer os pêssegos do quintal.


Sábado, 7 de junho de 1919

Ainda não me acostumei com o banheiro fora de casa!


Segunda-feira, 9 de junho de 1919

Até que o começo do século não foi uma época tão ruim. Pelo menos não aqui, depois da guerra.
Bem, os pêssegos acabaram e blablabla, então acabei fazendo um acordo com Cristovan: Vendo a casa se me deixarem vivendo na sala no andar de baixo!


Terça-feira, 10 de junho de 1919

Cristovan e sua família se mudaram pela parte da manhã. Trouxeram também a sua filha Estefânia, a mais bela das invenções divinas.
Com o dinheiro acabei comprando roubas e comida. Comecei um projeto de algo parecido com um chuveiro, o frio castiga meus banhos de caneca!


Domingo, 15 de junho de 1919

Há! Construí uma cozinha e uma espécie de banheiro em minha habitação. Uma fossa em declive com um cano leva a excreção para fora. Estefânia ficou impressionada. Cristovan acha que sou maluco!
Na verdade quem ficou impressionado fui eu. Expliquei para Estefânia como funcionava todo o meu sistema pessoal de higiene e ela, além de compreender, me deu ideias para ajudar com a irrigação da pequena horta de seus pais. Menina fastástica. Uma graça!


Segunda, 16 de junho de 1919

Estefânia me levou para conhecer a cidade. Tomamos sorvete e passeamos pela praça.
Conversamos sobre toda a situação política do pós-guerra e confesso que tive que me segurar para continuar uma conversa interessante sem contar que já sabia o que aconteceria depois. Sabe como é, não quero assustar a moçoila.


Terça-feira, 17 de junho de 1919

Não sei o que acontece comigo, não quero falar sobre isso.


Quinta-feira, 18 de junho de 1919

Não consigo mais me segurar, devo admitir que estou perdidamente apaixonado. Não consigo olhar Estefânia sem desejá-la em meus braços. Me seguro fortemente para não calar suas ideias fantásticas com um beijo sutil.
Preciso voltar, não posso mudar o passado.


Sexta-feira, 19 de junho de 1919

Gostaria de poder evitá-la. Me derreto quando chega de mansinho puxando papo, quando se interessa por meus trabalhos, quando me sorri para me chamar para ceiar.
Preciso esquecê-la, preciso voltar.


Sábado, 20 de junho de 1919.

Cristovan me questionou por não ter um emprego e ficar o dia inteiro infurnado em minhas "invenções".
Contei que nada daquilo tinha sido inventado por mim. Contei que a minha unica invenção foi o que me trouxe até aqui, até o passado.
Ele discretamente riu e perguntou se eu era um homem do futuro, de que ano vinha.
"Mil, novecentos e noventa e nove.", eu disse.
Bem, acho que estão rindo de mim até agora!


Domingo, 21 de junho de 1919

Ela me chamou para conversar. Estava emburrada e tão linda quanto sorrindo.
Perguntou por que a estava evitando e por que seguiria mentindo sobre meu passado.
"Meu passado está além do seu futuro", retruquei. Ela chorou. Disse que era exatamente por isso que precisava da verdade.
Tentei consolá-la e ela me beijou. Foi o beijo mais doce, mais sutil, mais tenro, mais... enfim... não estou sumindo, então acho que não tem problema.


Quarta-feria, 22 de junho de 1919

Acho que sou o cara mais feliz da história. Não sei quando contaria essa história, mas que eu sou feliz, eu sou!
Meu envolvimento com Estefânia está cada vez mais gostoso e interessantes.
Hoje, em minha habitação, conhecemos nossas intimidades. Ela insiste em querer saber do meu passado, mas pareceu esquecer enquanto trocavamos provas de amor.
Minha única preocupação é que as camisas de venus não eram assim tão fáceis de encontrar. Resolvo esse problema depois.
Hoje descobri que não sou o unico homem do futuro. Ouvi boatos sobre um certo homem vendendo bicicletas de alumínio... Físico vigarista, se aproveitando do conhecimento técnológico.


Quinta-feira, 23 de junho de 1919

Não me sinto muito bem. Vomitei o dia inteiro. Pelo menos tive Estefânia ao meu lado cuidando de mim.


Sexta-feira, 24 de junho de 1919

Continuo me sentindo mal. Seria um efeito da radiação?


Sábado, 25 de junho de 1919

Estou me sentindo um pouco melhor. Acho que queria ficar doente por mais um tempo. Gosto do mimo, dos chazinhos e das compressas de água quente!
O Físico me procurou na parte da tarde. Está desesperado querendo voltar para casa. Me explicou que os efeitos de alterações no passado podem ser muito graves e que só está fazendo o que está fazendo porque sente fome.
Compreendo. Eu só estou fazendo o que estou fazendo por amor.


Domingo, 26 de junho de 1919

Ó meu deus. Algo terrível aconteceu!!!! Cristovan veio me mostrar alguns albuns e manuscritos de família. Realmente não somo parentes.
Mas Estefânia é!!!!! E agora? Como iria saber que a Bisa Tefa se chamava Estefânia?????????????
Preciso achar o físico, precisamos voltar.


Sexta-feira, 1 de julho de 1919

Conseguimos arrumar alguns materias para começar uma solução alternativa para nossa viagem no tempo. De volta ao nosso tempo.
Chips também não eram populares por aqui. Droga.


Sábado, 2 de julho de 1919

Estou com o coração partido, Estefânia não quer nem comer pela maneira que a venho tratando. Tadinha.
Mas não posso continuar apaixonado pela minha bisavó.... posso?


Sábado, 19 de julho de 1919

Bem, depois de todos os testes e de uma incompreensão maluca, descobrimos que a falta de radiotividade não facilitará a conclusão do projeto.
Ficaremos aqui para sempre.
Ou até eu nascer.
Ou seja lá o que for.
Droga.
Agora também estou pouco me importando. Viverei minha paixão com Estafânia. Não conheci minha bisavó mesmo! Pelo menos não até agora...


Segunda-feira, 25 de agosto de 1919

Meu Deus. A grande desgraça aconteceu. Estafânia está gravida.
E os efeitos do tempo?
O que eu faço? O que eu faço?


Terça-feira, 26 de agosto de 1919

Cristovan descobriu sobre nosso relacionamento. Não, ele não está bravo. Está feliz! Quer que nos casemos.
Ainda faltam alguns bons anos para o domínio da tecnologia atômica, estamos presos no passado.
O que eu faço?


Quarta-feira, 27 de agosto de 1919

O físico falou para me acalmar, embora não consiga.
Disse que se ainda estou aqui é porque nada de grave acontecerá.
Falou sobre uma teoria maluca. Disse que sei que meu bisavô morreu antes de eu nascer. Assim como a Bisa Tefa.
Tentou explicar que nossa linha do tempo foi interferida, mas que segue contínua, sendo que tinha 26 anos de idade em 1999 e continuo minha tragetória em 1919. Aos 26 anos de idade.
Se minha linha da vida continua, então, devo seguir envelhecendo como qualquer outro animal. Idependente da data em que me encontro, levando em consideração que a quebra de tempo não significa a quebra da continuidade da linha de nossas vidas .
Sei que bisa só teve um filho. Mas ela está gravida. E eu estou aqui. Se nada foi interrompido e minha trajetória volta no tempo apesar de ser contínua, isso provavelmente significa que eu sou meu próprio bisavô!
Oh No!!!!!!!!
E agora????


Diario publicado em memória da incrível pessoa que foi Augusto Terrini. O inventor de coisas que não inventou.
Nascido em 1973, morreu em 1957.

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Foto abstrata de Fastolf Brambel, texto feito por Fastolf.b durante sua semana de crises de enxaqueca.

8 Opiniões sobre “Efeito do Tempo”

  1. # Anonymous Anônimo

    Você iria gostar do livro Breve história de quase tudo.

    Leia, vale a pena.


    valeu.

    fica uma pergunta . A luz da sabedoria cega ou abre os olhos?

    Diego  

  2. # Blogger Tahkren

    Eita! Finalmente arranjei tempo pra ler esse texto.
    Muito bom. Extremamente cativante!!!  

  3. # Anonymous Paola Zadra

    Maninho, Maninho...

    Vc é uma miragem???

    Vc é sombra ou realidade???

    Vc é uma ilusão de ótica

    palpável???

    Hahahahahahahaha

    Improvável!!!

    Grande crise de enxaqueca!!!

    You are insane,teeny brother!!!  

  4. # Blogger marcos freitas

    woooow! ...muito bom
    ...Mr Brambeldbury muito, muito bom!!!
    quando é que sai o livro?
    posso fazer a capa? hehehehe
    maravilhoso mesmo!
    uma delícia de ler!

    abração
    m.

    p.s. aah, thanx, já corrigi o de lá (e deu o mó trampo... tipografia é foda mano! e agora tem até uma foto da 'matriz'!!!) e encontrei um aqui heheheheheh mas nem é grave... é só dar um backspace no "g" e digitar um "j"

    p.p.s. quando é que a gente se vê?  

  5. # Blogger marcos freitas

    ...sei que não deveria falar assim mas... se isso é sempre desse modo, espero que você tenha muitas crises de enxaqueca!!! AHAHAHAHAHAHAHAHAAH  

  6. # Blogger Mercedes Gameiro

    Por que voce me disse que tinha um texto ridículo no seu blog? Tem um texto absolutamente fucking genial no seu blog, meu filho!
    Eu nao quero que voce tenha crises de enxaqueca, mas quero que vc tenha crises de escritor. Ou de pensador. E que coloque essa sua cabeça abençoadamente maluca pra funcionar mais vezes por ano. Em ação! Olhe para a sua velha mãe (essa foi forte!hahha) e não faça como ela. REALIZAR! REALIZAR! REALIZAR!
    Todos nós seremos esquecidos mais cedo ou mais tarde, mesmo os melhores de nós, se não deixarmos uma obra, algo feito, algo escrito, algo publicado, algo em praça publica. Idéias morrem conosco que não forem realizadas!
    Continua pensando, mas pensa e FALA. pensa e ESCREVE. Pensa e CONSTRÓI!!
    PLEASE!

    Seu texto não é ridículo, e passou do status de texto. é uma história. E é excelente!

    Beijos
    La Mama  

  7. # Anonymous Marília

    Muito bom!!!
    Voce conseguiu a proeza de me prender no computador nesses dias tão estranhos.
    Beijoo  

  8. # Blogger Alice Salles

    O que sua disse é verdade...
    Não é um texto, é uma história! E é fantástica, completamente genial, mind puzzling, bla bla bla.
    Gostei mesmo.
    E LI INTEIRO! ehehehe
    Beijos!!!!  

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© 2007 Fastolf Brambel
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